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Mostrando postagens com o rótulo escrevi

À mesa

Quase toda a gorda família à mesa; almoço farto de domingo, como de costume. O pai levanta, tilinta a taça de cristal e diz: - Querida família, eu e meu filho somos homossexuais. - Filha da … Mãe. A mãe encheu a boca e disse: ‘fi-lha-da-…’, assim mesmo, acentuada e pausadamente. O avô, surpreso, quase perdeu sua dentadura numa exclamação arrastada e idosa, mas depois de três segundos e meio, abriu um largo sorriso e seu rosto mostrou-se triunfante e orgulhoso: era homossexual desde o terceiro ano de seu casamento e nunca teve coragem de contar a ninguém. A avó, pobrecita , quase enfarta, mas foi quase. Pra infelicidade do vovô. Respirou fundo e arrancou de sua bolsa uma barra de crochet inacabada; olhou feio para o marido, que sacudiu os ombros de desdém. A filha do casal não podia acreditar. Num primeiro momento olhou para o pai com a descrença de quem ainda está ligando um ponto a outro, como se a "doença" e o doente não combinassem entre si. Lembrou ...

Chego mais cedo em casa.

- Ahn. Você já chegou? - Sim. A janta está pronta? - Não… Mas que droga! Fecha essa porta pelo menos. Fecho a porta. - E o que vai ter de janta? - Frango e arroz. - Como sempre. Sento à mesa. - A mesa está pronta? - Sim. Já pode vir. - Não vem me ajudar? Vou ajudá-la. Sentamos à mesa; dois pares de tudo. - Arroz…. e frango. - Frango… e arroz. - Pode comer, amor. Silêncio. - O que fez hoje? - Trabalhei, e você? - Trabalhei também. Silêncio. - Mamãe morreu. - Está brincando!? - Não. Queria ajudá-la. Abaixei os olhos. - Morreu de quê? - Estupraram, e depois mataram. - Há quantos dias? Peguei mais suco. - Não me lembro. - Tente se lembrar. - Mas não consigo. Peguei mais suco; derrubei. - Merda de jarra. - Presta atenção, seu tapado! - Ora, não me encha. Cai o copo e se quebra…! Bruno Portella

Dandelion

A última estocada e o gozo. Outras tantas poucas só de raiva e fermata. Retorna do mundo físico e senta na cama - obliterado. As pernas esticadas, dormentes - uma curiosa sensação de quase paralisia, onde se tem plena convicção do movimento das pernas, mas não as ativa por teimosia. Crê que não as domina, por puro galanteio. O ar da respiração prolonga, o sorriso de canto se aninha. Julgariam depressão, pois longe disso. Olha pela janela, olha longe da janela, mal olha pra fora da janela. Ela tenta se enrodilhar, mas não consegue. Ele nada faz, nada fez - ela tenta, mas fica cada vez mais difícil, mais alto, antigravitacional, metamorfo. Perde o peso num átimo de suspiro e flutua lentamente, os membros todos soltos no ar, o cérebro obliterado de suas funções motoras, desligado e o corpo ganhando altura bem de pouquinho. Experimenta um tapinha na cama com a ponta dos pés quase imperceptível e se encolhe todo na parede branca que de impulso faz o corpo mergulhar no canto superio...

O Olho

- Quanto tempo estamos aqui? - Uma lua, quase. - E quando vamos sair? - Quando aquela árvore parar de olhar pra cá. - Mas eu tô precisando aqui… - Ora, faça aí mesmo. - Mas ela tá olhando! - Que mal tem a árvore olhar? - A última coisa que quero é ofender essa árvore. - Ofendida com o quê? Ora, tire logo essa luva e faça logo. E vê se não respinga pra cá. - Óquei. Ela ainda tá olhando? - Não. Tá de lero com uma flor. - Rubens? - O próprio. Ei. Ela tá de olho de novo. Já terminou aí? - Já. - Põe a luva! - Desculpa. - Olha, ela vai tirar um cochilo… vai dormir. - A árvore? - Sim. - No sete a gente sai, tudo bem? - Claro. - Um. - Mas ela tá dormindo mesmo? - Dois. - Responde! - Sete! Vamos. - Calma!!! Olha! - O que foi? - Ali no canto. - Que que tem? - Ó lá, a gazela do bico de pato. - E daí? - E daí que ela tá olhando. Bruno Portella |foto de Diógenes Muniz

Protego

Ali na cama, o suco de nosso sexo escorria de minha mão para suas costas e a vice-versa; esfregava-lhe a fronte dos ombros com força, abraçava-a com quentura e terna adoração. A ebulição de sua pele e o cheiro de ‘te-quero’ do seu pescoço eram, naquele momento particular, o mais delicioso veneno que eu poderia provar enquanto escorria na serpente de sua coluna. As curvas do corpo, estas esquinas delicadas de seu rosto, o jeito empinado que o queixo se jogava à frente de seu pescoço carnudo. O colo maravilhoso, levemente salpicado de algumas pérolinhas de suor, todas danadinhas; sou amante do suspense, minha mão como o olho que vê o filme, apenas se insinua no delicado vale entre seus seios e então sobe em seu ombro onde faz a curva para seu braço leve e esguio – as unhas, no final destes braços, estão pintadas de um rosa apetitoso. É inevitável não se deixar levar pelo rebolado de sua bunda, como posso deixar de tocá-la se sua própria mão repousava gentilmente em suas nádegas? N...

A Sereia Sueca

Há poucos metros, silenciosa. Daquelas que você jura que pode, a qualquer momento, puxar uma faca ou aquela arma banal e assaltar de homicida metade do andar. Mas aí você repara que metade do andar poderia fazer isso. Aí você se dá conta (e pior, reprime) que você mesmo poderia fazer isso. Era esta a remetente e destinatária de cartas minhas nos últimos seis meses. Mas eu não sabia. Arrasado, faz apenas dois dias que me dei conta. Ela, pobre coitada, não faz idéia. Aquela de textos delicados ou não, aquela de bom humor – talvez completamente diferente da realidade. Não houve tempo suficiente para acertar como era; se loura, morena, ruiva, se 50 ou 15 anos, se realmente mulher. Era passear de bruxa a lolita em semanas; como era? Leitora forçada de minha própria vil publicidade literária confessou apenas não ser delicada. Duvidei. E então, de assalto, ela está no seu andar – no meu, no caso. Quiçá trocamos palavras sem notar. Mas ela não sabe. Eis o segredo. Ela não ...

Curou-se naquela noite

Nervosismo, gastrite doendo, mãos frias de suor e o elevador vazio. Chequei o papel envelhecido; há quanto tempo mesmo tinha marcado aquela consulta? Não me lembrava. Era segundo; segundo andar. O vidro, curioso levemente côncavo, distorcia minha imagem de forma sutil, mas terrivelmente perceptível como se gozasse de mim. O apito soou, lento demais afinal para apenas dois lances de concreto. Ao sair, deparei-me com um local muito semelhante ao saguão de entrada: cadeiras cuidadosamente esfarrapadas e as paredes terrivelmente sujas, embora uma análise mais próxima, revelasse que as infiltrações que escorriam e as coloriam de verde-musgo não passavam de uma bela pintura em afresco. A segunda mão de tinta descascando era obra de um exímio pintor que, sob a luz, emulava um efeito tridimensional perfeito. Corri o olhar pelo corredor e pessoas mil sentavam ali esperando serem chamadas. Todas, sem exceção, com o mesmo macacão surrado de cor azul assim como eu. Sentei-me em um...

Grand hotel

Lê o título. Guardanapos sofisticados, folhas duplas. Contém 50 deles, diz a embalagem. mentira, só tem um. Ele fica ali, limpinho em cima da coxa – um guardanapo daquele, tão chique, limpando uma boca tão suja e devassa. Procurei fazer tudo de uma vez, imaginando que quanto mais rápido sáisse, menos rastro deixaria – fazia sentido e demorou meia hora. Meia hora para 24 por 24 era coisa demais. Abri a folha, vincada em quatro quadrantes cartesianos – lambi cada vinco e da folha sofisticada, fiz quatro folhas únicas, finas. Ensaiei com cuidado cada movimento e a primeira folha rasgou só de olhar, malemá limpou as beiradas. Voltou envergonhada e eu logo a joguei no cesto. Segunda folha, mais cuidado – sucesso. Grande parte daquele batom, já limpos com finura pelo Grand Hotel, como uma princesa que tira o excesso do gloss. Mas ele queria mais, beijoqueiro danado. Deixou escapar um suspiro de amor, desses que não deixam dúvida. Foi-se a terceira folha e o beijoqueiro...

Garganta

Aquilo já me enchia. Encostado na cama e passando desapercebido por canais abertos e fechados da televisão, uma dor de cabeça fraca me atormentava, mas esse não era o problema. O problema era a dor de garganta. Qualquer movimento brusco com os músculos do pescoço era semelhante a uma garrafa quebrada tentando passar com força por ali. Mesmo uma gota de cuspe que tentasse descer pra tentar lubrificar o cu que virou minha faringe parecia com insetos me comendo por dentro. Cansado de doer-me com cada tragada de cuspe, deixei três copos ao meu lado, na escrivaninha. O primeiro, para poder cuspir quando não mais coubesse na boca, escapando de engolir qualquer coisa. Estava na metade, aquela nojeira. O quarto recendia a um odor bocal horrível. Não era mau hálito, precisamente, mas um tipo de cheiro absurdo que se desprega do cuspe quando em contato com o oxigênio. E ele só se mostrou terrível quando minha irmã entrou no quarto, graciosa e atenciosa, com meu reméd...

Degradet

Em um quarto escuro, o soluço do choro era forte o suficiente para que, mesmo cego, um qualquer soubesse a sua origem. Ainda que visse, no espelho não veria nada. Seus olhos viraram para dentro e tornaram-se inúteis para as luzes do mundo. Agora via com clareza os diferentes tons do negro escuro do seu próprio interior. Enxergava-se melhor agora. Muito tempo passou, ainda quando via, tentando pôr no branco do papel palavras que traduzissem sua lenta iminência de noite eterna. Ponto curioso, quando se convenceu de que o destino da luz para si estava morrendo antes do momento apropriado – ideal seria que corpo e luz morressem ao mesmo tempo. Mas para ele, a agonia da luz foi lenta. Atento, procurou não dormir durante meses a fio, para não perder a passagem do claro para o escuro. Para que não perdesse uma nuance sequer da escala de cinza que ia se alimentando das cores e o jogando no infinito escuro. Maior ainda foi seu gozo quando notou o primeiro tom distinto d...

Medialuna

À brasileirinha que lia A Insustentável Leveza do Ser do Kundera no café La Poesia da garçonete mais linda desse planeta; em San Telmo, Buenos Aires no dia 10 de Julho às cinco e quarenta três: escrevi um verso de Cortázar em espanhol no guardanapo com a certeza de que você era porteña . Cortázar dizia: Y sé muy bien que no estarás. No estarás en la calle, en el murmullo que brota de noc… Cortou o Cortázar, pois levantou-se à la cuenta  em que deixou uma generosa gorjeta à moza especial. E se foi me arrebentando deixando escapar a capa da mesma versão que eu tinha do Kundera, ainda virgem em casa. Fiz o verso do fim que vinha mais à ocasião e ficou o resto na mesa No estarás para nada, no serás ni recuerdo, y cuando piense en ti pensaré un pensamiento que oscuramente trata de acordarse de ti. Foi o que deixei de gorjeta pra garçonete que continuava lindíssima después do meu desencanto. Bruno Portella

Romance e Contaminação (Sonho)

(Transcrição de um sonho de sábado) O desespero nas ruas da cidade; uma cidade pacata, de poucos prédios e muita árvore. Pessoas corriam nas ruas, é de dia ou de tarde. Fogiam dos zumbis. Dos macacos-zumbi. O que havia determinado essa condição de caçadores aos macacos da cidade (e até a alguns humanos) era indefinido, certo mesmo era o perigo de suas mordidas e a fúria com que caçavam. Eu fugia também. E nesse passo desesperado, entre a urbe em pânico – feito início de São Silvestre, arrepiei subir a escadaria de um estúdio azul que todos evitavam, ou nenhum dos desesperados via absolutamente. Era de um menino sem rosto que não se encontrava em casa – primeiro, eu fechei as portas para evitar possíveis símios enlouquecidos. Era um estúdio todo azul, inteiramente pintado de azul real, completamente vazio, com exceção da garba cozinha de despensa cheia e uma conexão de internet ótima – wifi, sem pedir senhas. Comi, caguei, e logo apareceu o dono, que não se importou...

Uma estranha colonização de Marte

(Anotações. Um dia vira algo. Ou não.) Hoje sonhei. Foi longe: Marte. Não tinham placas, mas no sonho é assim. Pode estar tudo escuro, ou tudo azul, e você sabe que está em Marte, ou no útero de alguém. Você sempre sabe. Não tem dúvidas nos sonhos. Mas estava em Marte, estava escuro, haviam estradas pouco asfaltadas e montes de terra ao redor, como uma pista de corrida. E fazia todo o sentido, uma vez que o sonho já começa a bordo desses lindos karts do Mario, não lembro se eu estava com a Princesinha (Peach(, meu personagem preferido para as corridas de casco. Não importa. Eu estava lá, e ao invés de seguir o traçado certo de Marte, escolhi cortar um caminho (ah, essa vida de Mario Kart), para a esquerda subindo montes e encontrando, veja só, uma estrada alternativa, com plantas secas batendo no rosto (e você precisava abaixar se não quisesse se arranhar). Quase no fim da volta, retorno ao traçado original e para dentro de construções futurísticas baseadas em gran...

Não, eu não te amo não

Isso de amar é complicado. Todo mundo tá amando. Tá fácil amar. Aí se eu falo que te amo, nem parece que eu te amo. Por isso não digo. Eu guardo. Não solto. Não que eu te ame, também. Só estou falando de possibilidades. Eu poderia te amar, por que não? Não é questão de sentimento, parece mais de razão no caso – eu poderia te amar, mas não amo. Digo, não digo. Mas poderia. Mas se amasse, não diria. Todo mundo diz. Mesmo quem não ama. E quem não ama, mas diz, não sabe que não ama, pensa que ama. Aliás, tem certeza que ama. Até o sexo chamam de amor. Quem tá trepando, tá amando. Fazendo amor. Eu não faço amor – se faz o amor. O amor é sujeito oculto, não? Então ele observa a gente amando, transando. Eu amo, te amo, vc ama. É tudo cinco letras, estrela de cinco pontas. Pra baixo. Mas não te amo, se bem que… daria, né. Eu digo. Você é amável, eu te amaria fácil. Você é altamente amável. Mas você quer ser amada, aí que mora o bichano. Você fica esperando essa coisa de amor, de flores, de eu...

Entrevistas: Confissões Nº17

(… Depois de uns cinco anos eu fui na terapia. Cê acha que é fácil?, não é fácio não. Ma vou confessar: fiquei uns seis meses afastado, só de boa, leléuzinho com a terapeuta, de boa em casa, fazendo compra, curtindo jogo na tevê, recebendo o migué, saindo com os amigos tudo. Nada. E me sentindo sozinho pra cacete. Aquela parada me fazia bem, velhinho. Claro, sempre foi perturbador, principalmente no começo, mas depois cê acostuma. Não sei o que é pior. Não pra se acostumar com aquilo. Lembro que quando caiu o avião ali no Morumbi fui participar do resgate. Era a primeira vez que acontecia algo grande; fazia pouco tempo que eu tava na companhia, nem dois meses. Até então, nada. Nem gato em cima de árvore. Sabe, dessas coisas. Aí fui. Corpo pra tudo que é lado, carbonizados, repartido, foi um pouco chocante. Geral falando comigo, pedindo ajuda, amigo meu me chamando, pedindo mangueira e o cacete. Dava pra ouvir a berraria toda, mas a gente nem se liga. Naquele dia mesmo, eu nem tchum, a...

Perfume de Colarinho (Blues Paulistano)

Toda segunda-feira ela vem, a mocita que desfila sua saia de pintos pelo bar, mas vem também todos os outros dias. Mas segunda é diferente, estão todos bem cuidados, preocupados e ainda estafados com o começo da semana. De alguma forma isso a inspira, esse ar empresarial, o cenho franzido e quem sabe até as alianças (mas esse é fetiche de toda mulher, dizem). Não é puta, bem se vê; não é atirada, pelo contrário, é elegante e dona de si até um certo ponto em que não perde-se dentro de um desses ternos. Tem apenas um fetiche, como temos todos. A sua maior virtude é não se calar diante dele, e entregar-se piamente aos prazeres dessa sua disfunção carno-sexual. Ponto justo seja feito, tão curioso, é que nunca saiu com qualquer um desses homens – ao contrário de muitas de suas críticas, madames da vida – claro que todos tentam, pagam bebidas, drínques, descem a mão pela coxa – a dela na deles, sempre. Todos os sinais ali, evidentes, estampados na cara. O sortudo, precoce, avisa a m...

Nove e meia

Ela chega cedo. Entra, senta, olha o relógio. Ansiosa, cruza as pernas e abre um sorriso contido, tímido. Torna a olhar o relógio, mas agora o de cima do balcão com medo de que o seu esteja errado; não, alguns segundos de diferença apenas, nada que lhe aflija. O café não está cheio, mas meia dúzia de suas mesas está ocupada por empresários lendo o jornal da manhã ou por grupelhos de estagiários chegando de longe para a labuta. É bonita; nova, mas de rosto sereno, nem de longe uma moleca como aquelas primeiro-anistas. O sorriso, no começo, é contido e querendo explodir no rosto; mas vinte e sete cruzadas de pernas intercaladas e outras tantas olhadelas para o relógio e o riso já se alivia no canto da boca dando lugar à uma expressão muito mais ansiosa do que feliz. O grupelho deixa o local e se dirige ao início de seus trabalhos, o velho empresário termina a sessão de economias e, escondidinho, dá uma olhada na tabela do brasileiro. Sai altivo com aquele aceno de cima pra b...