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Nosferatu: o teatro do vampiro

O conde Orlok e sua vítima indefesa emergem no chão batido do SESC Consolação. A história clássica do vampiro terrível obcecado por essa dama, indefesa e atormentada pela besta fera que a tenta e caça na escuridão da noite. Noite essa tão bem caída no espaço escuro e opressor que sentamos diante de um balé de luzes de vela e frases delirantes de uma mulher em desespero. 

Somos enclausurados em um espaço escuro, preto, sem qualquer iluminação artificial (sério, não há) e o primeiro movimento da fera - sob uma luz fraquíssima de vela abafada, é esbaforir uma nuvem de fumaça inodora com a ajuda de uma espécie de turíbulo por todo local, subjugando sua dama, a cenografia e todo o público nessa névoa claustrofóbica.


A iluminação é um concerto à parte - apenas velas. O fogo das velas que os personagens tão bem controlam a certa hora de apagá-los, acendê-los ou movimentá-los - e como é forte a cena em que a dama saindo detrás de uma parede opaca faz o fogo de sua vela se esparramar pela sala inteira com uma força indivisível.

A única pena da peça reside nos delírios dessa dama indefesa - cenograficamente sugerindo situar-se talvez no começo do século XX, seus delírios no entanto remetem a ícones e modelos extremamente modernos o que tira um pouco o espectador daquele ambiente todo criado - sem contar que o texto, em si, apóia-se em uma cacofonia que funciona bem na apresentação na personagem passeando nos olhares amedrontados da plateia, mas revela-se de certa forma enjoativo quando posta em perigo por seu antagonista.

Esse, que aliás, entrega uma fera absolutamente aterrorizante. Somos apresentados logo de cara à sua forma humana e elegante e é de se espantar a habilidade do ator (Eric Lenate) em desdobrar esse demônio em faces absolutamente aterradoras ao se entregar em uma composição corpórea que distancia e muito a elegância do começo para uma espécie de demônio enclausurado na casca de um homem lutando desesperadamente para se movimentar pelo plano terreno.

Eu indicaria a peça somente para verem esse homem endemoniado encarnado um Nosferatu realmente assustador, mas o texto na boca da ótima atriz delirante infelizmente tira um pouco essa boa atmosfera criada. O que é uma pena dado que as únicas falas residem com ela. Boa peça, uma pena o texto.

Até 11 de outubro
Sesc Consolação

Rua Doutor Vila Nova, 245 - Consolação - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3234 3000
Quinta e sexta, 20h.
Bilheteria: 12h/22h (segunda a sexta). Ingressos também em toda a rede Sesc. Local da apresentação: Espaço Beta.
Ingresso: R$ 10,00

Bruno Portella

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