Pular para o conteúdo principal

Kerouac

A peça relâmpago “Kerouac” trouxe os últimos dias do ‘rei dos beats’ (que uso só por provocação a seu espírito), para o palco do Centro Cultural São Paulo – Vergueiro. Encarnado e muito bem encarnado por Mário Bortolotto. Peça ligeira, ágil, louca, dura pouco mais (ou menos, não lembro bem) de uma hora de duração. Pena.

Só tem Mário no palco como Jack, mas ele somente já enche a cena com sua interpretação empolgante, empolgada e viva; traz à história algumas memórias, que pouco importam se reais ou não, mas que habitam o universo dos livros do autor, e alguns personagens como Ginsberg, Burroughs e o seu grande amigo Neal Cassady (o famigerado Dean Moriarty em On the Road). Sempre em sua cabeça. Em seus xingamentos. 



Ambientado no quarto da casa onde mora com a mãe doente, Jack (arrastando uma das pernas) se rememora e sofre atormentado pelo passado e pela condição estelar do momento em que se encontra – fãs tocando sua campainha, entrevistas, envio de originais, alguns de seus fantasmas. E o curioso na peça é notar como a fala de Bortolotto em muitas vezes é um discurso furioso, energético e de pouca respiração como se Mário simulasse, com sua interpretação, a escrita urgente e automática de Kerouac.

Pontuada em muitos momentos pelo blues, jazz (que tanto embalou Sal e Dean na rota 66) a peça finaliza em uma das cenas mais energéticas da noite, à luz de velas, à fúria do autor/ator e ao som de Like a Rolling Stone de Bob Dylan (se meu conhecimento de rock não está de todo embananado, é claro).

Ao final, os efusivos aplausos não são somente pela peça, é evidente. Bortolotto sofrera a pouco tempo um terrível atentado ao ser baleado no espaço dos Parlapatões da Praça Roosevelt e ficado um tempo na UTI por conta dos ferimentos. E, sem dúvidas, é empolgante ver um homem se recuperar dessa forma e ainda entregar, como sempre deve fazer, uma atuação de quem é apaixonado pelo que faz. Naquela brincadeira dos caixões, Kerouac deve ter se remexido – mas apenas por conta do jazz.

Blogue de Mário: Atire no dramaturgo

Bruno Portella

Postagens mais visitadas deste blog

1Q84

Pediram pra eu ler. Quem pediu, tinha crédito por ter indicado outras coisas muito boas. Daí eu li. Também já tinha ouvido falar do livro, não lembro quando. Também já tinha visto a capa, não lembro onde. Tenho usado o Goodreads pra manter um acompanhamento dos livros que voltei a ler e o primeiro caso que criei foi que cadastrei ele como IQ84 e não 1Q84. É diferente. E eu realmente achei que fosse IQ, como se tivesse a ver com quoficiente de inteligência e não com uma data. Logo no começo do livro, entendi que se passava em 1984, então o primeiro mistério eu resolvi: era 1Q84, referente ao ano. Bastava prestar melhor atenção na capa. Mas essa bobagem foi o primeiro momento de abrir a boca e falar sozinho: a, tá! Burro, você pode pensar. Mas por mim tudo bem. Troquei o registro no Goodreads pensando que eu era mesmo burro. Daí voltei pro livro. Gosto de ler livros ouvindo música instrumental. Nesse caso, como era nos anos 80 e ambientado no Japão, eu procurei uma lista de músicas adequ...

StarTalk: Willian Shattner e Neil deGrasse Tyson

Que episódio gostoso de ouvir esse.  Em certo ponto, dei risada sozinho, pois parecia uma rinha de narradores disputando quem... narrava melhor e mais profundamente. Mas fora a briga de graves, além das reflexões usuais que o podcast do Neil traz sobre o Universo e seus mistérios, gostei bastante sobre como o Bill traz uma reflexão nada revolucionário, mas sempre interessante sobre como a curiosidade é a principal força motor da humanidade. Tem um monte de reflexão ali muito interessante. Vale a pena ouvir. Eu sempre me pego pensando algo parecido: como a gente é curioso, né? E que bom.

O Homem Invisível (2021)

A mulher foge do relacionamento abusivo de um namorado muito rico apenas para ser atormentada por uma presença que ela jura existir, mas que ninguém acredita nela. Que nervoso de filme maldito. Ele deixa a gente absolutamente desesperado em toda e qualquer cena imaginando onde está a maldita presença invisível, que sabemos estar em todas as cenas (nós e a protagonista). Os eventos mais importantes dessa presença são nefastos e aterradores (um em específico acabou comigo, você saberá qual é quando acontecer). O filme é excelente. A discussão em torno de um relacionamento abusivo dentro desse conceito incrível do HG Wells é muito bem feito e relevante. Vale a pena demais. Mas é bom ver um The Office depois, pra num ficar paranoico. Argh.