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Mostrando postagens com o rótulo conto de amor

Dandelion

A última estocada e o gozo. Outras tantas poucas só de raiva e fermata. Retorna do mundo físico e senta na cama - obliterado. As pernas esticadas, dormentes - uma curiosa sensação de quase paralisia, onde se tem plena convicção do movimento das pernas, mas não as ativa por teimosia. Crê que não as domina, por puro galanteio. O ar da respiração prolonga, o sorriso de canto se aninha. Julgariam depressão, pois longe disso. Olha pela janela, olha longe da janela, mal olha pra fora da janela. Ela tenta se enrodilhar, mas não consegue. Ele nada faz, nada fez - ela tenta, mas fica cada vez mais difícil, mais alto, antigravitacional, metamorfo. Perde o peso num átimo de suspiro e flutua lentamente, os membros todos soltos no ar, o cérebro obliterado de suas funções motoras, desligado e o corpo ganhando altura bem de pouquinho. Experimenta um tapinha na cama com a ponta dos pés quase imperceptível e se encolhe todo na parede branca que de impulso faz o corpo mergulhar no canto superio...

Medialuna

À brasileirinha que lia A Insustentável Leveza do Ser do Kundera no café La Poesia da garçonete mais linda desse planeta; em San Telmo, Buenos Aires no dia 10 de Julho às cinco e quarenta três: escrevi um verso de Cortázar em espanhol no guardanapo com a certeza de que você era porteña . Cortázar dizia: Y sé muy bien que no estarás. No estarás en la calle, en el murmullo que brota de noc… Cortou o Cortázar, pois levantou-se à la cuenta  em que deixou uma generosa gorjeta à moza especial. E se foi me arrebentando deixando escapar a capa da mesma versão que eu tinha do Kundera, ainda virgem em casa. Fiz o verso do fim que vinha mais à ocasião e ficou o resto na mesa No estarás para nada, no serás ni recuerdo, y cuando piense en ti pensaré un pensamiento que oscuramente trata de acordarse de ti. Foi o que deixei de gorjeta pra garçonete que continuava lindíssima después do meu desencanto. Bruno Portella

Não, eu não te amo não

Isso de amar é complicado. Todo mundo tá amando. Tá fácil amar. Aí se eu falo que te amo, nem parece que eu te amo. Por isso não digo. Eu guardo. Não solto. Não que eu te ame, também. Só estou falando de possibilidades. Eu poderia te amar, por que não? Não é questão de sentimento, parece mais de razão no caso – eu poderia te amar, mas não amo. Digo, não digo. Mas poderia. Mas se amasse, não diria. Todo mundo diz. Mesmo quem não ama. E quem não ama, mas diz, não sabe que não ama, pensa que ama. Aliás, tem certeza que ama. Até o sexo chamam de amor. Quem tá trepando, tá amando. Fazendo amor. Eu não faço amor – se faz o amor. O amor é sujeito oculto, não? Então ele observa a gente amando, transando. Eu amo, te amo, vc ama. É tudo cinco letras, estrela de cinco pontas. Pra baixo. Mas não te amo, se bem que… daria, né. Eu digo. Você é amável, eu te amaria fácil. Você é altamente amável. Mas você quer ser amada, aí que mora o bichano. Você fica esperando essa coisa de amor, de flores, de eu...

Nove e meia

Ela chega cedo. Entra, senta, olha o relógio. Ansiosa, cruza as pernas e abre um sorriso contido, tímido. Torna a olhar o relógio, mas agora o de cima do balcão com medo de que o seu esteja errado; não, alguns segundos de diferença apenas, nada que lhe aflija. O café não está cheio, mas meia dúzia de suas mesas está ocupada por empresários lendo o jornal da manhã ou por grupelhos de estagiários chegando de longe para a labuta. É bonita; nova, mas de rosto sereno, nem de longe uma moleca como aquelas primeiro-anistas. O sorriso, no começo, é contido e querendo explodir no rosto; mas vinte e sete cruzadas de pernas intercaladas e outras tantas olhadelas para o relógio e o riso já se alivia no canto da boca dando lugar à uma expressão muito mais ansiosa do que feliz. O grupelho deixa o local e se dirige ao início de seus trabalhos, o velho empresário termina a sessão de economias e, escondidinho, dá uma olhada na tabela do brasileiro. Sai altivo com aquele aceno de cima pra b...