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Férias sem alarde, ou a vingança da mente

Texto de 2012

Férias sem alarde.

Dezoito dias em que a única conjugação de verbo será a de respirar um pouco. Mas nem de viagens, nem de alardes – saio de férias pra entrar no limbo de onde quero apenas respirar e pensar. Não gosto de alarde, não gosto de reações pontuais exarcebadas – que não sejam por paixão.

Férias é outra coisa. Não horizontalizo nenhuma viagem mirabolante, lugares lindos, fotos idem, culinária típica – aquela fúria desesperada de conhecer o máximo possível do mundo. A viagem aqui precisa ser feita pra dentro.


Tem pouco tempo que fui a Buenos Aires, onde escrevi Medialuna, para um amor de lá. A natureza da viagem foi essa, a de conhecer, a de não perder tempo com besteirinhas e ver o máximo possível da cidade, dos humores e cheiros. Sucesso. Bom para a mente que dialoga experiências e cataloga memórias e conceitos.

Desta vez, farei algo diferente.

Não farei nada. Apenas desligarei as máquinas ao redor, desligarei o próprio corpo e deixarei os dias passarem. Em um lugar onde talvez ele passe ainda mais lentamente do que na cidade distorcida que moro – onde se introduziu uma nova métrica longitudinal: o tempo.

Uma hora da mente. Outra do corpo. Mas a mente é ardilosa. Tanto que, enciumada, não planejou absolutamente nada. Não se comprou passagens com antecedência, escalas pensadas, roteiros cantados. Nada. Nada no horizonte. A mente se apaga. Quem decide agora é o corpo, ou o coração.

Pra algum lugar, eles vão me levar.

Eu quero só ver no que vai dar. Vai dar literatura, talvez.

Bruno Portella

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