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Desmistificando a descupinização

O calor escaldante tirou da hibernação inquilinos antiquíssimos do meu apartamento: os malquistos cupins.

Não houve reza nem aleluia, simplesmente vieram da madeira profunda comendo tudo e esburacando minhas gavetas – e foi com alarde. De um dia pro outro, simplesmente tomaram as rédeas da escavação pelas paredes e durante a noite, os rangidos da madeira cedendo chegavam a ser audíveis, ainda que minúsculas criaturas de deus. Tal a fúria com que mastigavam.

A praga urbana invisível. Sem aquele escarcéu todo em volta da luz, nem um puto se fantasiando de pixel, nada. Se via apenas as asas deixadas para trás por uma nova função e as fezes amadeiradas que se acumulavam de canto em canto.

Começo a obra do extermínio diagnosticando pelo Google. Sem dúvidas: eram cupins. E de cupins, o Google conhece – liguei imediatamente para quatro prestadoras: Higitech (que enviou seus operários), Tecnomad (que enviou um biólogo, veja só), DDDRin (que enviou o motorista) e uma outra tal que tão mal atendido, mal lembro – sorte dela.

O proprietário original desse canto humilde da Vila Mariana escolheu a Tecnomad (que eu teria escolhido também se tivesse esse poder – rapaz profissional, bem trajado, conhecedor da colônia de cupins e de suas castas, biólogo de faro, sem frescuras em colocar a mão no buraco). Ainda que a Higitech (que enviou seus operários, aqueles metem a mão nno cupim, e não seu biólogo mestre catedrático) tenha me surpreendido justamente pelo conhecimento que todos ali tinham – e com muita vontade de conhecer e de mostrar quem era quem naquela colônia. Curti. Já a DDDrin: fujam. Menor vontade de colocar a mão pra ver o que era, simplesmente perguntaram o número de aposentos e foram embora. Juro.

As instruções, das piores possíveis:

- Esvaziem armários (tudo em cima da cama com o lençol por cima)

- Afastem pelo menos um metro os móveis dos rodapés


Amigues, num apartamento pequeno essa conta não fecha.

Mas aí vieram eles, os paladinos e a droga biológica. Uma arma fina, líquida, eu quase podia ouvir o canto esganiçado dos cupins e de sua Rainha se debatendo enquanto suas crias se obliteravam em creme de musgo verdinho claro.

Uma hora depois, apartamento lacrado por vinte e quatro horas, penso eu que para deixar que os cadáveres agonizem no líquido e aos que sobram na nuvem de pesticida.

Desde então, não ouço mais a madeira ranger. Sumiram as asas pequenas, as fezes amadeiradas, as discussões de meia-noite sobre pragas. Na mitologia cupínica, cantarão músicas aos resistentes; eu que sou humano, relato apenas que destruímios mais uma sociedade. Orgulhei, senhores.

por Bruno Portella, da Vila Mariana, indica Tecnomad para o trabalho

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