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Mostrando postagens com o rótulo contos contemporâneos

O Olho

- Quanto tempo estamos aqui? - Uma lua, quase. - E quando vamos sair? - Quando aquela árvore parar de olhar pra cá. - Mas eu tô precisando aqui… - Ora, faça aí mesmo. - Mas ela tá olhando! - Que mal tem a árvore olhar? - A última coisa que quero é ofender essa árvore. - Ofendida com o quê? Ora, tire logo essa luva e faça logo. E vê se não respinga pra cá. - Óquei. Ela ainda tá olhando? - Não. Tá de lero com uma flor. - Rubens? - O próprio. Ei. Ela tá de olho de novo. Já terminou aí? - Já. - Põe a luva! - Desculpa. - Olha, ela vai tirar um cochilo… vai dormir. - A árvore? - Sim. - No sete a gente sai, tudo bem? - Claro. - Um. - Mas ela tá dormindo mesmo? - Dois. - Responde! - Sete! Vamos. - Calma!!! Olha! - O que foi? - Ali no canto. - Que que tem? - Ó lá, a gazela do bico de pato. - E daí? - E daí que ela tá olhando. Bruno Portella |foto de Diógenes Muniz

Curou-se naquela noite

Nervosismo, gastrite doendo, mãos frias de suor e o elevador vazio. Chequei o papel envelhecido; há quanto tempo mesmo tinha marcado aquela consulta? Não me lembrava. Era segundo; segundo andar. O vidro, curioso levemente côncavo, distorcia minha imagem de forma sutil, mas terrivelmente perceptível como se gozasse de mim. O apito soou, lento demais afinal para apenas dois lances de concreto. Ao sair, deparei-me com um local muito semelhante ao saguão de entrada: cadeiras cuidadosamente esfarrapadas e as paredes terrivelmente sujas, embora uma análise mais próxima, revelasse que as infiltrações que escorriam e as coloriam de verde-musgo não passavam de uma bela pintura em afresco. A segunda mão de tinta descascando era obra de um exímio pintor que, sob a luz, emulava um efeito tridimensional perfeito. Corri o olhar pelo corredor e pessoas mil sentavam ali esperando serem chamadas. Todas, sem exceção, com o mesmo macacão surrado de cor azul assim como eu. Sentei-me em um...

Entrevistas: Confissões Nº17

(… Depois de uns cinco anos eu fui na terapia. Cê acha que é fácil?, não é fácio não. Ma vou confessar: fiquei uns seis meses afastado, só de boa, leléuzinho com a terapeuta, de boa em casa, fazendo compra, curtindo jogo na tevê, recebendo o migué, saindo com os amigos tudo. Nada. E me sentindo sozinho pra cacete. Aquela parada me fazia bem, velhinho. Claro, sempre foi perturbador, principalmente no começo, mas depois cê acostuma. Não sei o que é pior. Não pra se acostumar com aquilo. Lembro que quando caiu o avião ali no Morumbi fui participar do resgate. Era a primeira vez que acontecia algo grande; fazia pouco tempo que eu tava na companhia, nem dois meses. Até então, nada. Nem gato em cima de árvore. Sabe, dessas coisas. Aí fui. Corpo pra tudo que é lado, carbonizados, repartido, foi um pouco chocante. Geral falando comigo, pedindo ajuda, amigo meu me chamando, pedindo mangueira e o cacete. Dava pra ouvir a berraria toda, mas a gente nem se liga. Naquele dia mesmo, eu nem tchum, a...

Perfume de Colarinho (Blues Paulistano)

Toda segunda-feira ela vem, a mocita que desfila sua saia de pintos pelo bar, mas vem também todos os outros dias. Mas segunda é diferente, estão todos bem cuidados, preocupados e ainda estafados com o começo da semana. De alguma forma isso a inspira, esse ar empresarial, o cenho franzido e quem sabe até as alianças (mas esse é fetiche de toda mulher, dizem). Não é puta, bem se vê; não é atirada, pelo contrário, é elegante e dona de si até um certo ponto em que não perde-se dentro de um desses ternos. Tem apenas um fetiche, como temos todos. A sua maior virtude é não se calar diante dele, e entregar-se piamente aos prazeres dessa sua disfunção carno-sexual. Ponto justo seja feito, tão curioso, é que nunca saiu com qualquer um desses homens – ao contrário de muitas de suas críticas, madames da vida – claro que todos tentam, pagam bebidas, drínques, descem a mão pela coxa – a dela na deles, sempre. Todos os sinais ali, evidentes, estampados na cara. O sortudo, precoce, avisa a m...