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Sobre Jogos e a Crise Literária

Vivo uma crise literária.

Lutando pra manter a leitura em dia d’Os Irmãos Karamazov do craque russo Dostoiévski, que tem sido muito bom, aliás. Eu me encontro em um ponto em que simplesmente não tenho lido, o ritmo da leitura nunca fora tão lento (nem mesmo durante a tortura proustiana). E em nenhum momento me sinto mal por isso (não sei se deveria).

Explico: tenho me cercado e absorvido demais a narrativa e histórias de jogos (que esses sim, tenho jogado à loucura). E tenho me cercado de jogos recheados de histórias muito boas, e até mesmo com diálogos muito especiais – de forma alguma aceito que sejam uma arte menor em termos de história, e de todas as formas, me sinto um ser humano menos pior enquanto cérebro pensante.


Minha mãe, como tantas, odiava o tanto que eu ficava jogando no computador, mas talvez mal saiba ela que grande parte da construção do meu caráter e mesmo minha facilidade pra aprender inglês foi por conta de Planescape: Torment, que é simplesmente a melhor experiência que eu já tive jogando qualquer coisa. Existem elementos, diálogos, narrativas nesse jogo que muito raramente você encontra com tanta qualidade na literatura (principalmente, na fantástica). O extremo esmero na construção de cada personagem, o peso da personalidade de cada um dos protagonistas, todos os pontos de reviravolta, toda a trama, toda a filosofia por trás de um homem imortal que a cada vez que deveria morrer, apenas esquece de tudo que já viveu.

Desde Torment, todo jogo que eu jogo, eu presto muito atenção nesses detalhes – em como o jogo desenvolve a trama, a narrativa, e é muito claro como em muitos casos a linguagem do livro se parece muito, mas muito com a dos jogos. Diferente DEMAIS da linguagem televisiva ou mesmo cinematográfica, onde você tem um limitador de tempo, onde as coisas geralmente ficam extremamente jogadas. Tanto nos livros, como nos jogos, pelo contrário, você tem a liberdade de criar tramas extremamente longas e geniais (como Torment) ou simplesmente curtas e sufocantes de tão incríveis (como Mirrors Edge).

Na época que joguei esses dois títulos, nem me dei conta. Mas hoje, quase como uma desculpa pra ler tão pouco, eu redescobri o prazer de jogar bons jogos por suas tramas, por seus estilos narrativos, por suas reviravoltas, por seus protagonistas. Assim como um livro, ora se não.

Bruno Portella

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