Lo.li.ta. Nabokov começa na boca, detalhando todos os movimentos que o músculo de sua língua faz ao pronunciar o nome de sua pequena amada (perdoa o trocadilho). É nesse detalhamento, nessa preocupação com pedaços menos usuais que Vladimir Nabokov faz passear a sua história. Esses detalhes, veja bem, que tanto tira o foco do narrador não são esses de prateleiras (como a ode à natureza morta ou aos olhos de um alguém), mas de pedaços determinantes como os pés amarelos de ‘macaquinha’ ou a covinha que antecede o sorriso maroto de sua menina – são esses berloques que te pregam desprivinido. A contracapa de minha versão – aquela da Folha, diga-se – resume rasteiramente como um romance ‘boy meets girl’, ora seu editor, por favor. Muito além disso, o livro é um depoimento apaixonado e sincero de um homem que, trocando logo tudo em miúdos, é um pedófilo que se apaixona perdidamente por sua enteada. E a sinopse lhe desperta automaticamente aquele sentimento de repulsa que nos habita p...